Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

domingo, 8 de junho de 2008

FLORBELA ESPANCA

foto: autor desconhecido
Florbela Espanca

VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

LÚCIO CARDOSO

foto: autor desconhecido
Lúcio Cardoso



TESTAMENTO

Quando um dia pedirem
para dizer o que fui,
lembre-se de mim:
nem leviano nem grave
- humano.

Este ser sem coragem da mentira,
sem amar, porque o amado
é distante e forte;
sem querer, porque o querer
é uma possibilidade de ficar;
sem pedir, porque o orgulho impede
- o único orgulho –
o da raça.
Sem nada. Porque o nada
é o modo genial de tudo ter.
Este.
Não sou mais, porque a lenda
aos poucos devora meu corpo
e tendo sido
precavenho-me para o depois.
Eu sou o depois.
Mas assim como sou
quando um dia pedirem
para dizer que fui
a imagem é fácil:
um ser no vento,
e de tanto passar –
ficou.

sábado, 7 de junho de 2008

Urânia e Calíope

Urânia e Calíope
Pintura de Simon Vouet
Fonte: Wikipedia

Musa com Cítara


Musa com cítara.
Lécito ático de fundo branco e figuras vermelhas atribuído ao Pintor de Aquiles. Data: -445. Munique, Staatliche Antikensammlungen. Fonte: Wikipedia.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

HILDA HILST

fonte: não citada
Hilda Hilst



Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.

Ninguém ali. Nem humanos, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?

Pegadas finas
Feitas a fogo e a espinho.
Teu passo queima se me aproximo.

Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.

_______________________________________________

Eder Accorsi

Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. E digo sem cerimônias
Que vives porque te penso.
Se acaso não te pensasse
Que fogo se avivaria não havendo lenha?
E se não houvesse boca
Porque o trigo cresceria?

Penso que o coração
Tem alimento na Idéia.
Teu alimento é uma serva
Que bem te serve à mão cheia.
Se tu dormes ela escreve
Acordes que te nomeiam.
Abre teus olhos, meu Deus,
Come de mim a tua fome.

Abre a tua boca. E grita este nome meu.


______________________________________________


É neste mundo que te quero sentir.
É o único que sei. O que me resta.
Dizer que vou te conhecer a fundo
Sem as bênçãos da carne, no depois,
Me parece a mim magra promessa.
Sentires da alma? Sim. Podem ser prodigiosos.
Mas tu sabes da delícia da carne
Dos encaixes que inventaste. De toques.
Do formoso das hastes. Das corolas.
Vês como fico pequena e tão pouco inventiva?
Haste. Corola. São palavras róseas. Mas sangram.

Se feitas de carne.

Dirás que o humano desejo
Não te percebe as fomes. Sim, meu Senhor,
Te percebo. Mas deixa-me amar a ti, neste texto
Com os enlevos
De uma mulher que só sabe o homem.

SAN JUAN DE LA CRUZ

fonte: não citada San Juan de la Cruz

CÂNTICO ESPIRITUAL
(trechos)

Buscando meus amores
irei por esses montes e ribeiras;
nem colherei as flores
nem temerei as feras,
e passarei os fortes e fronteiras.

Então, por que chagado
tornaste um coração e o não curaste?
E, já que foi roubado,
por que assim deixaste
abandonado o roubo que roubaste?

Apaga meu queixume,
pois que ninguém consegue desfazê-lo,
e possa ver teu lume
o olhar que em ti se alumbra,
e apenas para ti quero volvê-lo.

Ó cristalina fonte,
se nesses teus semblantes prateados
formasses de repente
os olhos desejados
que tenho nas entranhas desenhados!

Quando tu me fitavas,
sua graça em mim teus olhos imprimiam;
por isso me adornavas
e nisso mereciam
meus olhos adorar o que em ti viam.

Unamo-nos, Amado,
para olharmos em tua formosura
os montes e o valado,
donde mana a água pura;
entremos mais a fundo na espessura.

Descobre tua presença,
mate-me tua visão e formosura;
não te esqueças que a doença
de amor jamais se cura
a não ser com a presença e com a figura.

sábado, 31 de maio de 2008

AEDO - Servo das Musas

Hesíodo e a Musa
Óleo sobre tela de Gustave Moreau (1891)

ANTERO DE QUENTAL

Antero de Quental


MORS-AMOR

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!
"Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

ANA CRISTINA CESAR


NADA, ESTA ESPUMA

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.



____________________________________________________


ENCONTRO DE ASSOMBRAR NA CATEDRAL

Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que
não é mudez.
E não toma medo desta alta compadecida
passional, desta crueldade intensa que te
toma as duas mãos.


* fotos: autor não identificado

terça-feira, 20 de maio de 2008

CECÍLIA MEIRELES

Foto: fonte não conhecida
CANÇÃO

Não sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
quebra meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino, faço
tudo a que Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
Componho o meu movimento.
Por indireta e direta,
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta, - em cada momento.

Não digas aos que encontrares
que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
que ousarás contar da lua?

domingo, 18 de maio de 2008

MARCILIO MEDEIROS

Foto: arquivo pessoal Marcilio Medeiros

INTERVALO

Nesta tarde em que o vento
vela pelo macio alarido
das chamas
queda-se abandonada
a equívoca equação
que domina o que é selvagem.

O que mais
senão o cansaço
para permitir esse breve momento
de impossível trégua?

sábado, 17 de maio de 2008

SYLVIA PLATH

LORELEI

Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho.

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam.

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direcção, peturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,

aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existe além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem também nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
- a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.

Tradução: Maria de Lourdes Guimarães in PLATH, Sylvia.
Pela água. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.

Foto: autor desconhecido

Sylvia Plath

CRUZ E SOUSA

Foto: autor desconhecido

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta…

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

EROS E PSIQUE

Grupo de mármore de Antonio Canova,
terminado por Adamo Tadolini (1789/1868) em 1824.
Villa Carlotta, Como (Itália).
© Elsie DeCou, University of California (Santa Cruz).
_______________________________________________________
Eros e Psiquê - Gérard, 1798
Museu do Louvre - Paris
Image from Cgfa

FERNANDO PESSOA

Foto: autor desconhecido





Eros e Psique







...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.

(Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária De Portugal)



Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

ÉRATO

Érato é a musa da poesia lírica na mitologia grega. É geralmente representada com uma lira.

Érato - Painel em carvalho de Simon Vouet