Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

sábado, 28 de fevereiro de 2009

EROS


reprodução

O Amor Voa, de Adolphe William Bouguereau

WILLIAM BUTLER YEATS

LEDA E O CISNE

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

AURORA

reprodução
Aurora, de Adolphe William Bouguereau

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


CAMPO DE FLORES

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus - ou foi talvez o Diabo - deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

DIANA E ENDIMIÃO


reprodução

Diana e Endimião (c.1753), de Jean Honoré Fragonard

ROBERT CREELEY


DE NOVO

Outro dia ido,
adiado, achado na
forma de dias.

Teve início, teve
fim - foi adian-
tado, atrasado,

lento, logo um
sol brilhou, nuvens,
fiquei flutuando no ar

um tempo com outras,
então desci
de novo ao chão.

Lua alguma. Quarto de
espelunca - começar
de novo.

Tradução de Rodrigo Garcia Lopes

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

LAOCOONTE E FILHOS

reprodução
Laocoon (c.1610-14), de El Greco (Domenikos Theotokopoulos)

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

A CABEÇA DE BACALHAU

Miscelânea de algas
cordões, caules, detritos —
firmamento

de peixes —
onde as patas amarelas
das gaivotas chapinham

ramos batem
barcos deixam rastro de bolhas
— de noite doidamente

agitam-se fosforescentes
animálculos — mas de dia
flácidas

luas em cujos
discos por vezes uma cruz vermelha
reside — quatro

braças — no fundo assenta
um salpico
de areias esverdeadas —

amorfo titubeio
de rochas — três braças
o corpo

vítreo pelo qual —
peixinhos velozes descem
fundo — e

eis embalo um sobe
e desce —
estrelas vermelhas — uma decepada

cabeça de bacalhau entre
duas pedras — subindo
descendo.

Tradução de José Paulo Paes