Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

HÉRCULES E ÔNFALE

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Alegoria da Sabedoria e da Força: A Escolha de Hércules ou Hércules e Ônfale.
Paolo Veronese (cópia de François Boucher)

EDITH SITWELL

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Edith Sitwell

VERDE FLUI O RIO LETE...

Verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Lá onde o fogo era nas veias - erva cresce
Sobre a febre -
Erva verde crescendo...

Perto eu estava das Cidades da Planície;
E as meninas perseguiam seus corações como as alegres borboletas
Pelos campos do Estio -
Oh veludo evanescente batendo as vossas asas
Como veludo e borboletas no Caminho de Nada a Parte Alguma!

Mas na sede estival
Fugi, porque eu era um Pilar de Fogo, eu era Destruição
Insaciável, encarnada e cor de carne.

Eu era Aniquilamento;
Alva, porém, como o mar Morto, alva como as Cidades da Planície.
Porque eu escutava o meio-dia e minhas veias
Que ameaçavam trovões, e o coração das rosas.

Segui o meu caminho -
Mas longa é a terrífica Rua do Sangue
Que parecera outrora apenas parte do vermelho Estio:
Desdobra-se para sempre e não há desvio,
Mas só fogo, aniquilamento, ardência.

Pensei que o caminho do Sangue nunca se cansava.
Mas agora só o trevo flamante
Pousa no bafejar do leão e na boca do amante -

E verde flui o rio Lete - Oh
O longo rio Lete
Sobre Gomorra e o fogo...

Tradução de Jorge de Sena

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

NINFAS

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Jogo das ondas (1883), de Arnold Boecklin

EDNA ST. VINCENT MILLAY


EPITÁFIO

Não cubra esse túmulo
Com rosas que ela amou demais
Por que confundi-la com rosas
Que ela não pode ver ou cheirar mais?

Ela está feliz no seu lugar
Com a poeira que lhe cobre o olhar.

Tradução de Marcilio Medeiros

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

EUROPA E JÚPITER

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Europa e Júpiter metamorfoseado em touro (1910), de Valentin Serov

FLORBELA ESPANCA

INTERROGAÇÃO

A Guido Batelli

Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma de charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize pra onde vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra...
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

NÍOBE

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Morte dos Filhos de Níobe (1591), de Abraham Bloemaert

PAULO LEMINSKI

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Paulo Leminski

JÁ ME MATEI FAZ MUITO TEMPO...

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

PÃ E PSIQUÊ

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Pã e Psiquê, de Edward Burne-Jones

CÉSAR MORO


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César Moro


A ÁGUA LENTA O CAMINHO LENTO

A água lenta o caminho lento os acidentes lentos
Uma queda suspensa no ar o vento lento
O passo lento do tempo lento
A noite não termina e o amor se faz lentamente
As pernas se cruzam e se juntam lentas para deitar raízes
a cabeça cai os braços se levantam
O céu da cama a sombra cai lenta
teu corpo moreno como uma catarata cai lento
No abismo
Giramos lentamente pelo ar quente do quarto cálido
As borboletas noturnas parecem grandes carneiros
Agora seria fácil destroçarmo-nos lentamente
tua cabeça gira tuas pernas me envolvem
tuas axilas brilham na noite com todos teus pêlos
tuas pernas nuas
No ângulo preciso
O cheiro de tuas pernas
A lentidão da percepção
O álcool lentamente me deixa alto
O álcool que brota de teus olhos e que mais tarde
Fará crescer tua sombra
Alisando o cabelo lentamente subo
Até teus lábios de fera

Tradução de Claudio Daniel