Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

EUROPA E JÚPITER

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Europa e Júpiter metamorfoseado em touro (1910), de Valentin Serov

FLORBELA ESPANCA

INTERROGAÇÃO

A Guido Batelli

Neste tormento inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

Ó alma de charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize pra onde vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Visões de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra...
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

NÍOBE

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Morte dos Filhos de Níobe (1591), de Abraham Bloemaert

PAULO LEMINSKI

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Paulo Leminski

JÁ ME MATEI FAZ MUITO TEMPO...

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

PÃ E PSIQUÊ

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Pã e Psiquê, de Edward Burne-Jones

CÉSAR MORO


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César Moro


A ÁGUA LENTA O CAMINHO LENTO

A água lenta o caminho lento os acidentes lentos
Uma queda suspensa no ar o vento lento
O passo lento do tempo lento
A noite não termina e o amor se faz lentamente
As pernas se cruzam e se juntam lentas para deitar raízes
a cabeça cai os braços se levantam
O céu da cama a sombra cai lenta
teu corpo moreno como uma catarata cai lento
No abismo
Giramos lentamente pelo ar quente do quarto cálido
As borboletas noturnas parecem grandes carneiros
Agora seria fácil destroçarmo-nos lentamente
tua cabeça gira tuas pernas me envolvem
tuas axilas brilham na noite com todos teus pêlos
tuas pernas nuas
No ângulo preciso
O cheiro de tuas pernas
A lentidão da percepção
O álcool lentamente me deixa alto
O álcool que brota de teus olhos e que mais tarde
Fará crescer tua sombra
Alisando o cabelo lentamente subo
Até teus lábios de fera

Tradução de Claudio Daniel

sábado, 10 de janeiro de 2009

BACANAL

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Bacanal, de Auguste Léveque

BERTOLT BRECHT

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Bertolt Brecht

AOS QUE VIEREM DEPOIS DE NÓS

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem (se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Tradução de Manuel Bandeira

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

APOLO E JACINTO

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A Morte de Jacinto, de Méry-Joseph Blondel

MARIANNE MOORE


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Marianne Moore


O QUE SÃO OS ANOS?

O que é nossa inocência,
nossa culpa? Frágeis, somos,
vulneráveis. E de onde vem a
coragem: a pergunta sem resposta,
a resoluta dúvida –
muda chamando, surda ouvindo – que
no infortúnio, na morte mesmo,
encoraja outras ainda
e em sua derrota anima

a alma a ser forte? Compraz-se
e com perspicácia vê
quem a mortalidade abrace
e no confinamento contra si
mesmo se volte, assim
como o mar que no abismo intenta ser
livre mas, incapaz de ser,
no ato de capitular
encontra seu perdurar.

Quem no sentimento espera
assim age. O próprio pássaro,
que ao cantar se engrandece, acera
o corpo aprumado. Embora cativo,
seu poderoso trino
diz: o contentamento é humilde;
quão puro é o regozijo.
Isto é mortalidade,
isto é eternidade.

Tradução de José Antonio Arantes

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

APOLO E MÁRSIAS

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Apolo e Mársias, de Palma il Giovane

JORGE WANDERLEY


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Jorge Wanderley


CORPO ANTERIOR

Que faço aqui, neste meu corpo, amando
Outro corpo, doado — e estranho a mim?
Dois corpos desiguais e no comando
O que eu decido. E quem decide assim?

Estranho todos os departamentos
E eu sou um outro, que não pousa aqui.
Cada nervura, poro, o tegumento
— Desconheço de todo, nunca vi.

Altura que não quero, mãos esquerdas,
O que está velho e não forjou memórias,
O gesto alheio, o olhar sobre tropeços,

São crônicas já pálidas, a perda
Do nunca possuído: alguma história
Que espera no futuro o seu começo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

SONO E MORTE

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Sono e Morte carregando Sarpedão da Lícia (1803), de Henry Fuseli

D. H. LAWRENCE

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D. H. Lawrence

COBRA

Uma cobra veio à minha cisterna
Num dia escaldante, e eu em pijama por causa do calor,
Beber água.

Desci as escadas de jarro na mão
Na sombra funda e estranho odor de grande alfarrobeira negra
E tive de ficar à espera, tive de ficar à espera ali em pé, pois lá estava ela na cisterna antes de mim.
Entrou vinda de uma fenda na parte escura do muro de terra
E desceu, arrastando a frouxidão amarelo-castanha do seu ventre mole sobre o bordo da cisterna de pedra,
E apoiou a garganta no fundo de pedra
E, onde a água gotejara da torneira, numa pequena pureza,
Sorveu com a boca reta,
Bebeu suavemente a água que penetrou por entre as gengivas retas no longo corpo mole,
Silenciosamente.

Alguém chegara à cisterna antes de mim,
E eu, como quem chega em segundo lugar, à espera.

Deixou de beber e ergueu a cabeça como faz o gado,
E olhou-me vagamente como faz o gado ao beber,
E fez vibrar a língua bífida de entre os lábios e cismou um instante,
E curvou-se e bebeu um pouco mais,
Um ser castanho-de-terra, dourado-de-terra, vindo das entranhas ardentes da terra,
No dia de Julho siciliano, com o Etna a fumegar.

A voz da minha educação disse-me:
É preciso matá-la,
Pois na Sicília as cobras pretas são inocentes, as douradas, venenosas.

E vozes em mim disseram: se és homem,
Pega num pau e esmaga-a já, acaba com ela.

Mas devo eu confessar como gostei dela?
Como estava contente por ter vindo, qual hóspede tranquilo, beber na minha cisterna
E partir pacífico, apaziguado e sem agradecimentos
Para as entranhas ardentes da terra?
Foi por cobardia que não ousei matá-la?
Foi por perversidade que ansiei falar-lhe?
Foi por humildade que me senti honrado?
E senti-me tão honrado.

E, contudo, aquelas vozes:
Se não tivesses medo, matá-la-ias!

E era verdade, tinha medo, muito medo,
Mas mais ainda me sentia honrado
Por ela ter buscado a minha hospitalidade,
Vinda da porta negra da secreta terra.

Bebeu o que quis
E ergueu a cabeça, sonhadoramente, como quem bebeu,
E fez vibrar a língua como uma noite bífida no ar, tão preta,
Parecendo lamber os lábios,
E olhou à volta para o ar, sem ver, como um deus,
E devagar virou a cabeça,
E devagar, muito devagar, como que três vezes mais em sonho,
Pôs-se a arrastar a lenta linha longa do corpo em curva
E a trepar a rampa em ruínas do meu talude.

E, ao introduzir a cabeça naquele buraco horrível,
Ao içar-se lentamente, ajustando os ombros de cobra e entrando mais,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra aquela fuga para o horrendo buraco preto,
Aquele penetra deliberado na escuridão, aquele arrastar-se lento para lá,
Apossou-se de mim, agora que ela estava de costas.

Olhei à volta, pousei o jarro,
Peguei num pau desajeitado
E atirei-o com estrépito à cisterna.
Penso que não lhe acertou,
Mas, de súbito, a parte dela que ainda não entrara contorceu-se
Em pressa pouco digna,
Vibrou como um relâmpago e desapareceu

No buraco preto, a fenda de lábios de terra no meu muro
Que eu fiquei fitando fascinado na intensa calma do meio-dia.

Arrependi-me logo.
E pensei: que ato torpe, grosseiro e desprezível!
Odiei-me e às vozes da minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz,
E desejei que regressasse, a minha cobra.

Pois de novo me aparecia como um rei,
Como um rei em exílio, deposto no submundo
E que há-de outra vez ser coroado.

E assim perdi a oportunidade com um dos senhores
Da vida.
E tenho algo a expiar;
Uma mesquinhez.

Tradução de Herberto Helder

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

AQUILES

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A Ira de Aquiles (1819), de Jacques-Louis David

DJUNA BARNES

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Djuna Barnes

CADÁVER A

Trouxeram-na para dentro, um minúsculo
Casulo esmigalhado,
O pequeno corpo ferido como
Uma lua amedrontada:
E com as suas ténues sinfonias
Feitas runas do entardecer.

CADÁVER B

Deram-lhe encontrões de um lado
Para o outro.
O seu corpo ficou à prova de choque
Como o de um gato da cidade.
Ficou lá fora sem vida como a cerveja morta
Que restou na pequena caneca.

Tradução de Fernanda Borges