Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo
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segunda-feira, 30 de março de 2009

ROBERT CREELEY

A CHUVA

Toda a noite o som tinha
voltado de novo,
e de novo cai
esta chuva persistente, mansa.

O que eu sou para mim
tem de ser recordado
e insisto
tanto? É que

nunca o repouso,
mesmo a dureza,
de chuva caindo
terá para mim

algo mais do que isto,
algo não tão insistente –
terei de ser encerrado nesta
inquietação final?

Amor, se me amas,
deita-te a meu lado.
Sê para mim, como chuva,
a fuga

ao cansaço, à fatuidade, à semi-
luxúria da indiferença intencional.
Molha-te
com uma felicidade decente.

Tradução de Manuel de Seabra

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

ROBERT CREELEY


DE NOVO

Outro dia ido,
adiado, achado na
forma de dias.

Teve início, teve
fim - foi adian-
tado, atrasado,

lento, logo um
sol brilhou, nuvens,
fiquei flutuando no ar

um tempo com outras,
então desci
de novo ao chão.

Lua alguma. Quarto de
espelunca - começar
de novo.

Tradução de Rodrigo Garcia Lopes

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

ROBERT CREELEY


reprodução

Robert Creeley


AMOR

Há palavras voluptuosas
como a carne
na sua umidade,
seu calor.

Tangíveis, elas falam
das confirmações,
dos confortos,
de ser humano.

Não dizê-las
torna abstrato
todo desejo
e por fim sua morte.

Tradução de Virna Teixeira