Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo
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sábado, 28 de março de 2009

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

O DIREITO DE PASSAGEM

Transitando com a idéia posta
em nada deste mundo

a não ser o direito de passagem
eu desfruto a estrada por

efeito de lei —
vi

um homem de idade
que sorriu e desviou o olhar

para o norte, além de uma casa -
uma mulher de azul

que estava rindo e se
inclinando para a frente

a fim de olhar o rosto meio
voltado do homem

e um menino de uns oito anos que
olhava para o meio da

barriga do homem
para uma corrente de relógio —

A suprema importância
deste inominado espetáculo

fez com que eu acelerasse
ao passar por eles sem palavra —

Por que me importaria o rumo?
e lá fui rodando sobre as

quatro rodas do meu carro
pela estrada molhada até

que vi uma moça com uma perna sobre
o parapeito de um balcão.

Tradução de José Paulo Paes

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

A ACÁCIA-MELEIRA EM FLOR
Segunda versão

Por
entre
verde

velho
claro
rijo

roto
ramo
outro

branco
doce
Maio

vem.

Tradução de José Paulo Paes

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

A CABEÇA DE BACALHAU

Miscelânea de algas
cordões, caules, detritos —
firmamento

de peixes —
onde as patas amarelas
das gaivotas chapinham

ramos batem
barcos deixam rastro de bolhas
— de noite doidamente

agitam-se fosforescentes
animálculos — mas de dia
flácidas

luas em cujos
discos por vezes uma cruz vermelha
reside — quatro

braças — no fundo assenta
um salpico
de areias esverdeadas —

amorfo titubeio
de rochas — três braças
o corpo

vítreo pelo qual —
peixinhos velozes descem
fundo — e

eis embalo um sobe
e desce —
estrelas vermelhas — uma decepada

cabeça de bacalhau entre
duas pedras — subindo
descendo.

Tradução de José Paulo Paes

terça-feira, 21 de outubro de 2008

WILLIAM CARLOS WILLIAMS


reprodução

William Carlos Williams


A DURAÇÃO

Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e Ihe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.

Tradução: José Paulo Paes