"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"
Safo
sábado, 17 de outubro de 2009
ZILA MAMEDE
Não retornei aos caminhos
que me trouxeram do mar.
Sinto-me brancos desertos
onde as dunas me abrasando
tarjam meus olhos de sal
dum pranto nunca chorado,
dum terror que nunca vi.
Vivo hoje areias ardentes
sonhando praias perdidas
com levianos marujos
brincando de se afogar,
com rochedos e enseadas
sentindo afagos do mar.
Tudo perdi no retorno,
tudo ficou lá no mar:
arrancaram-me das ondas
onde nasci a vagar,
desmancharam meus caminhos
- os inventados no mar:
depois, secaram meus braços
para eu não mais velejar.
Meus pensamentos de espumas,
meus peixes e meu luar,
de tudo fui despojada
(até das fúrias do mar)
porque já não sou areias,
areias soltas de mar.
Transformaram-me em desertos,
ouço meus dedos gritando
vejo-me rouca de sede
das leves águas do mar.
Nem descubro mais caminhos,
já nem sei também remar:
morreram meus marinheiros,
minha alma, deixei no mar.
Pudessem meus olhos vagos
ser ostras, rochas, luar,
ficariam como as algas
morando sempre no mar.
Que amargura em ser desertos!
Meu rosto a queimar, queimar,
Meus olhos se desmanchando
- roubados foram do mar.
No infinito me consumo:
acaba-se o pensamento.
No navegante que fui
sinto a vida se calar.
Meus antigos horizontes,
navios meus destroçados,
meus mares de navegar,
levai-me desses desertos,
deitai-me nas ondas mansas,
plantai meu corpo no mar.
Lá, viverei como as brisas.
Lá, serei pura como o ar.
Nunca serei nessas terras,
Que só existo no mar.
sábado, 8 de agosto de 2009
MYRIAM COELI
Myriam Coeli
MEDIDA
Para João Lins Caldas
Na geometria de um caixão
não cabe espanto ou alarido
nem o tempo com seus vestidos,
vazio, fábula, condição.
Tolhida é a fala e a permanência.
Vida, hieróglifo decifrado.
Peito enredado em tédio ou em grito
não cabe em barco de um caixão.
Não cabe sede, fonte e fome
concretas arestas de espadas
lacerando da vida o signo
em verdades acrescentadas.
Garras da fúria de um minuto
não cravam rictus nem desgosto
nem dialogam faces prismáticas
com configurações propostas.
Só cabe em crepes de um caixão
Pontas de adjetivas sombras.
Não há ginetes cavalgando
no avesso das pupilas. E aves
súbitas em cantos no abismo
de sonhos. Ou olhos vigilantes.
Não há mãos, gestos delirantes,
coração tirso ou pés em préstito,
nem periscópio ou concisão,
cilício e muros submersos.
Prata, ouro, coisas corrosivas
tempo artesão e alma em volutas
sobram em móvel de um caixão.
Não há sega de sangue ou cuspe,
não há canto, mapa ou disfarce.
Dados e dardos não se arriscam,
nem se acendem em febres, brasas,
os desejos desconformados.
Nem pelo medo é devorado
que se tem em limite exato
nas alegorias do tato.
Não há labirintos seguros
onde a angústia é subterrânea
hiena que as vísceras come.
(Já nos suportes do caixão
começam clarins de silêncio).
Em horizontes de um caixão
linha exata repousa a treva
e o corpo – desusada pedra
de antracite, de pó e nada
levitando em logro. Insuflada
Caixão entre círios e réquiens,
de grifos negros, feras mortas
e em tralhas de rendas tortas
velado em catafalco amém.
Mundo que se desmistifica
no surdo baque de um caixão.
domingo, 21 de dezembro de 2008
JORGE FERNANDES
Que linda manhã parnasiana...
Que vontade de escrever versos metrificados
Contadinhos nos dedos...
Chamar de reserva todas as rimas
Em - or - para rimar com amor...
Todas as rimas em - ade - pra rimar com saudade...
Todas as rimas em - uz - pra rimar com Jesus, cruz, luz...
Enfeitar de flores de afeto um soneto ajustadinho
Todo trancado na sua chave de ouro...
Remexo os velhos livros...
“Ah! que saudades eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida...”
Zim... (ligaram um dínamo de milhares de cavalos
E as polias giram e as máquinas abafam o último verso da quadrinha...)
E lá me vem à mente o ritmo dos teares...
As grandes rimas dos padrões...
Os fios se cruzam... se unem pras grandes peças de linho...
- Óleos... fios... polcas... alavancas,
Apitos. Ponteadores. Carrités.
Zim traco! traco! traco! Malhos. Alicates. Ar comprimido.
Fuco! fuco! dos foles
Marcação de fardo pra exportação: marca M.B.C. - Fortaleza - M.F.M. - Mossoró - setas e contra marca -
Trepidação de decoviles.
“Ah! que saudades eu tenho.”
E me abafa o segundo verso de Casemiro
Um caminhão cheio de soldados que segue para o interior
A caçar bandidos.
Que linda manhã parnasiana!
Vou recitar “A vingança da porta”.
Os lindos e sangrentos versos do meu passado:
- “Era um hábito antigo que ele tinha..”
Pregões de gazeteiros: - Raide de San-Roman! Ribeiro de Barros
O grande momento da aviação mundial!
- Que poema forte o de San-Roman!
- Que poema batuta o de Ribeiro de Barros!
Todo misturado de nuvens, de óleo, gasolina,
De graxa, de gritos de bravos! de emoções!
Dem! dem! dem!: - o auto-socorro -
- Quem vem ali?
Um operário que quebrou uma perna de uma grande altura.
- Viva o grande operário! - Viva o grande herói do dia!
- Vivôôôôô!...
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
MOACY CIRNE
POESIA
o potengi me naufraga:
eis-me devorado
por seus crepúsculos
seus mangues
suas mulheres
rosas dos ventos
e outros alentos
memória que me faz igapó
como se potengi eu fora o rio
barra nova ou seridó
entre a ribeira e a redinha
o itans e o poço de santana
a aurora e o espanto
noite sol extremoz e luar
nas madrugadas do amanhã
com as putas do wunder-bar
e as cores silenciosas da manhã
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
BERILO WANDERLEY
Berilo Wanderley
A MÁSCARA
A máscara que uso, uso
por causa do meu vizinho,
que me viu nu;
que me viu arder na tarde
brava,
caos e ordem, rei azul.
Esta máscara em desuso
que hoje uso,
me fere o rosto.
Meu vizinho quis assim.
Mas, ontem, vi o rio e a ilha
e fui rei posto.
Juventude, eixo e todo
do meu corpo
que meu vizinho cortou.
Passa o alento, passa lento o vento,
já não sou.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
AUTA DE SOUZA
Auta de Souza
CAMINHO DO SERTÃO
A meu irmão João Cancio
Tão longe a casa!... Nem sequer alcanço
Vê-la, através da mata. Nos caminhos,
A sombra desce... E, sem achar descanso,
Vamos, nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!
É noite, já! Como, em feliz remanso,
Dormem as aves nos pequenos ninhos...
Vamos mais devagar... de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.
Brilham estrelas... Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece,
Que a Noite ensina ao desespero e à dor...
Ao longe, a Lua vem dourando a treva,
Turíbulo imenso, para Deus eleva
O incenso agreste da jurema em flor.
sábado, 4 de outubro de 2008
JORGE FERNANDES
Jorge Fernandes
MANHECENÇA
O dia nasce grunindo pelos bicos
Dos urumarais...
Dos azulões... da asa branca...
Mama o leite quente que chia nas cuias espumando...
Os chocalhos repicam na alegria do chouto das vacas...
As janelas das serras estão todas enfeitadas
De cipó florado...
E o coên! coên! do dia novo —
Vai subindo nas asas peneirantes dos caracarás...
Correndo os campos no mugido do gado...
No — mên — fanhoso dos bezerros...
Nas carreiras da cutias... no zunzum de asas dos besouros,
das abelhas... nos pinotes dos cabritos...
Nos trotes fortes e luzidos dos poltros...
E todo ensangüentado do vermelhão das barras
Leva o primeiro banho nos açudes
E é embrulhado na toalha quente do sol
E vai mudando a primeira passada pelos
Campos todo forrado de capim panasco..
quarta-feira, 30 de julho de 2008
ZILA MAMEDE
Zila Mamede
CANÇÃO DO SONHO OCEÂNICO
(primeira parte)
Empossei-me dos caminhos
convergentes para o mar.
Três dias nasci areias
depois, conchas esquecidas
na memória dos rochedos
que julgavam ser navios
carregados de luar.
Fui areia, agora, búzios
chamando os ventos do mar.
Quando me senti sargaços
pedi às algas tranqüilas
que me emprestassem coroas,
e vestindo lenda e sal
arranjei sete concertos
na paisagem mineral.
Compus meus olhos marinhos
quando a fuga da maré,
carregando os pensamentos
dos corais e dos recifes,
conduziu-me em sete fontes
dormindo peixes e estrelas
no outro sono do mar.
Agora nascida estrela
Algas, recife e coral,
Não me contentam areias
Nem me prende litoral.
Pedindo o vôo das gaivotas
em rumos desconhecidos,
sonhando estradas marinhas
compondo sete oceanos
para neles navegar.
Sou como o sal das salinas,
pois fui nascida do mar.
domingo, 18 de maio de 2008
MARCILIO MEDEIROS
INTERVALO
Nesta tarde em que o vento
vela pelo macio alarido
das chamas
queda-se abandonada
a equívoca equação
que domina o que é selvagem.
O que mais
senão o cansaço
para permitir esse breve momento
de impossível trégua?
