Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

ANNE SEXTON

LAMENTO

Alguém está morto
até as árvores o sabem,
essas pobres dançarinas que se achegam lúbricas,
todas estola verde-ervilha e vértebras de poste.
Penso...
Penso que poderia tê-la detido;
se houvesse sido firme enfermeira
ou notado o colo do motorista
no que ele burlava o sinal do cruzamento;
e depois à noite,
se mantivesse meu guardanapo à boca;
penso que poderia...
se fosse diferente, ou sábia, ou calma,
ter encantado a mesa,
o tenso repasto ou a mão do crupiê.
Mas está feito.
Tudo já foi gasto.
Não há qualquer dúvida em meio às árvores
esticando seus finos pés sobre a relva seca.
Um ganso canadense alça vôo,
estirado como uma blusa de camurça cinza,
enganchando seu bico no vento de março.
No limiar um gato boceja calmo
em sua pelica azul.
Os pratos principais se serviram e o sol
desacostumado a tudo
segue sempre se pondo.

Tradução de Ruy Vasconcelos

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

ANNE SEXTON


reprodução

Anne Sexton



O SOL

Tenho ouvido falar de peixes
que vieram acima pelo sol
e ficaram para sempre
ombro a ombro,
avenidas de peixes que nunca regressaram,
deles sugados
todos os pontos de orgulho e solidões.

Penso em moscas,
que das suas grutas torpes
saem ao terreiro.
Primeiro são transparentes.
Depois azuis com asas de cobre.
Rebrilham nas frontes dos homens.
Nem pássaro, nem acrobata,
hão-de mirrar como pequenos sapatos pretos.

Eu sou um ser idêntico,
doente do frio e do odor da casa,
dispo-me sob a lupa ardente.
A minha pele alisa-se como água do mar.
Ó olho amarelo,
deixa-me adoecer do teu calor,
deixa-me ser febril e carrancuda.

Toda me dou agora.
Sou a tua filha, a tua guloseima,
o teu padre, a tua boca, a tua ave,
e hei-de contar a todos histórias de ti
até posta de lado para sempre,
um magro pendão pardo.

Tradução de João Ferreira Duarte