Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo
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sábado, 10 de outubro de 2009

SAFO


wikipedia
Safo (representada em mosaico)


TRÊS FRAGMENTOS DE SAFO


vem, lira divina, e me responde;
encontra, tu mesma, tua própria voz.

Tradução de Joaquim Brasil Fontes


como a maçã mais doce enrubescendo-se
no alto do mais alto ramo, a sós,
que os colhedores esqueceram lá –
não, esqueceram não: nenhum pôde alcançar.

Tradução de Álvaro A. Antunes


é Eros outra vez
que, fera má, me acossa:
de-fel-de-mel serpente impiedosa
envenenando de tremor as minhas coxas.

Tradução de Álvaro A. Antunes

sábado, 25 de abril de 2009

KONSTANTINOS KAVÁFIS


MUROS

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesar,
ergueram à minha volta altos muros de pedra.

E agora aqui estou, em desespero, sem pensar
noutra coisa: o infortúnio a mente me depreda.

E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!
Quando os ergueram, mal notei os muros, esses.

Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.
Isolaram-me do mundo sem que eu percebesse.

Tradução de José Paulo Paes

domingo, 8 de fevereiro de 2009

KONSTANTINOS KAVÁFIS

À ESPERA DOS BÁRBAROS

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Tradução de José Paulo Paes

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

JEAN MORÉAS


gravura: Antonio de La Gandara.
fonte: wikimedia commons

Jean Moréas


ESTÂNCIAS

VII – Livro 4º


Do éter companheiro, ó fumo lento e esquivo,
Um pouco nos parecemos:
Só duras um instante, eu já sem vida vivo,
Mas do fogo nascemos.

Que seus joelhos gaste, a cinza a recolher,
O homem, pra durar;
Sem que tal nis importe e sem jamais descer,
Sumamo-nos no ar.

Tradução de A. Herculano de Carvalho

sábado, 12 de julho de 2008

KONSTANTINOS KAVÁFIS


Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms

Konstantinos Kaváfis

DESEJOS

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas –
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.


Tradução de José Paulo Paes.