Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

APOLO E DAFNE

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Apolo e Dafne, de Piero Pollaiuolo

VELIMIR KHLÉBNIKOV

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Velimir Khlébnikov

TEMPOS-JUNCOS

Tempos-juncos
Na margem do lago,
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.

Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

EUROPA E ZEUS

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O Rapto de Europa (1562), de Tiziano Vecellio

PAUL VAN OSTAIJEN

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Paul Van Ostaijen

VERSO 6

Eu não posso colecionar selos
Eu não posso colecionar fotos de mulheres
Eu não posso colecionar namoros
nem sabedoria
eu já não posso nada mais
eu já não posso nada mais
Porque não apago a luz
e não vou pra cama
Eu quero provar
estar nu
pelado quem sabe sim púrpura gelada
e palidez
Não é assim o próprio princípio principiante
Eu não quero saber nada
eu não quero perguntar
porque
eu não me tornei um colecionador de selos
Eu começarei por dar meu fracasso
Eu começarei por dar minha falência
Eu me darei um pobre despedaço de terra
uma terra pisoteada
uma terra de urzes
uma cidade ocupada
Eu quero estar nu
e começar

Tradução de Philippe Humblé e Walter Costa

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

DEMÉTER


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Deméter procurando por Perséfone, de Howard David Johnson

JOSÉ LEZAMA LIMA


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José Lezama Lima


A ESCADA E A FORMIGA

À meia-noite
a formiga desce a escadaria do hotel.
Tenta seguir o alongamento de uma linha reta.
Às vezes pára: que labirintos resolverá?
Mas cada patamar a faz parar
de um modo surpreendente.
Anda pelo degrau como se procurasse
a encosta necessária para suas costas,
e então se precipita como se cantasse.
Está livre de todo compromisso,
mas acha de imprevisto um pedaço de asa
e corre pra alcançar a casa que desconhecemos.
Faz a folia em todas as escalas
e depois desce gabola até a outra
correndo como se estivesse numa praia.
Está feliz
por dominar a escada.
Sabe que terá sucesso em sua luta.
O sapato que pode machucá-la
passa raspando, mas lhe deixa
um pedaço de folha de tabaco,
uma pétala maculada,
o sal que acalora seus olhos dominantes.
É a senhora da escada
e passeou degrau por degrau
com a elegância de uma dama inglesa
que leva o lixo até a esquina,
ao latão verde
com a coroa inglesa
riscada pelos dois leopardos.

Tradução de Josely Vianna Baptista

domingo, 28 de dezembro de 2008

SEREIA

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Sereia, de Edward John Poynter

VASKO POPA


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Vasko Popa


DENTE DE LEÃO

Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão

Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra

Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu

Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido

Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita

E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo

Tradução de Aleksandar Jovanovic

sábado, 27 de dezembro de 2008

JÚPITER, MERCÚRIO, FILEMON E BAUCIS

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Júpiter e Mercúrio hospedados por Filemon e Baucis (1678), de Johann Carl Loth

GEORG TRAKL


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Georg Trakl


AOS EMUDECIDOS

Oh, a loucura da cidade grande, quando ao entardecer
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;
A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.

A puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.

Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora.

Tradução de Cláudia Cavalcante

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

HÉRCULES

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Hércules em Repouso (1690), de Giovanni Gioseffo Dal Sole

FRANCIS PONGE

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Francis Ponge

O PEDAÇO DE CARNE

Cada pedaço de carne é uma espécie de fábrica, moinhos e lagares de sangue.
Tubulações, altos fornos, cubas vizinhos de martelos pilões, coxins de graxa.
O vapor jorra, fervente. Fogos sombrios ou claros encarnam-se.
Sarjetas a céu aberto carreiam escórias e fel.
E lentamente, à noite, à morte, todas essas coisas se resfriam.
Breve, se não a ferrugem, pelo menos outras reações químicas se produzem, liberando odores pestilenciais.

Tradução de Júlio Castañon Guimarães

BACO E ARIADNE

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Baco e Ariadne, de Tiziano Vecellio

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

WALT WHITMAN


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Walt Whitman, em gravura de Samuel Hollyer


CANTO DE MIM MESMO

Com a estrondosa música venho, com as minhas cornetas e tambores,
Não só toco marchas para os vencedores aclamados, também as toco para os conquistados e abatidos.

Ouviste dizer que foi bom vencer?
Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo espírito com que se ganham.

Toco e volto a tocar pelos mortos,
Sopro por eles a minha mais alta e alegre melodia.

Vivas pelos vencidos!
E por aqueles cujos vasos de guerra afundaram no mar!
E pelos náufragos também!
E por todos os generais que perderam e por todos os vencidos heróis!
E pelos inumeráveis heróis desconhecidos iguais aos maiores heróis conhecidos!

Tradução de José Agostinho Baptista

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

DIANA, ENDIMIÃO E SÁTIRO

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Diana, Endimião e Sátiro, de Karl Brulloff

NUNO JÚDICE


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Nuno Júdice



METAFÍSICA

1


Não tenta nada de que se tivesse já esquecido;
o seu objectivo, agora, é organizar o presente.

2

Com as mãos, procura avaliar a qualidade da terra:
se as folhas lhe dão a consistência do ser vivo,
ou se a pedra que está por baixo, com os restos
fósseis da origem, rompe a sua unidade, e impede
o caminho às raízes.

3

Os olhos não sabem, ainda, que a visão profunda
os dispensa. Por dentro, o olhar implica a noite;
e é da fusão das formas no negro último do céu,
para além da superfície das estrelas e das nebulosas
que essa verdade brilha com a sua exacta eternidade.