Monte Parnaso ou Apolo e as Musas, de Simon Vouet
Audálio Alves
INICIAÇÃO À ETERNIDADE
Entre o Sol e a Lua
e, mais,
entre o chão que me segura
e o espaço que me veste,
aqui inicio
esta aula celeste:
- Olhem-me nos olhos:
conservem a inteireza do silêncio.
Lembrem-se de Deus
e sigam-me
em direção ao infinito.
Condessa de Noailles, em pintura de Ignacio Zuloaga
Santo Souza
OPUS 8
de auroras,
noites
e sereias
Jogo os dados no mar, como quem joga
a sorte das estrelas ou do vento,
e fico a embaralhar as ondas, como
o lúcido hierofante que desvenda
nas cartas o destino dos mortais.
Não sei qual é a carta-chave, mas
capto o sentido exato e a voz de quem
profere a frase mágica de tudo.
E se há no fundo náufragos que vão
com dedos ágeis folheando páginas
de noites e de auroras impossíveis,
na superfície há sempre olhos profanos
de peixes e sereias, traduzindo
o jogo de meus dedos sobre o mar.
Camilo Pessanha
Carlos Drummond de Andrade
MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Friedrich Nietzsche
ECCE HOMO
Sim! Bem sei donde eu provenho!
Insaciável qual chama,
ardo todo em fogo ardente.
Faz-se luz tudo o que tomo,
carvão, tudo o que abandono:
sou chama seguramente.
Tradução de A. Herculano de Carvalho
Jean Moréas
ESTÂNCIAS
VII – Livro 4º
Do éter companheiro, ó fumo lento e esquivo,
Um pouco nos parecemos:
Só duras um instante, eu já sem vida vivo,
Mas do fogo nascemos.
Que seus joelhos gaste, a cinza a recolher,
O homem, pra durar;
Sem que tal nis importe e sem jamais descer,
Sumamo-nos no ar.
Tradução de A. Herculano de Carvalho