Um caderno de leituras
"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"
Safo
"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"
Safo
terça-feira, 22 de julho de 2008
ARTHUR RIMBAUD
O ADORMECIDO DO VALE
Era um recanto onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.
Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.
Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma criança que risse, enferma, no seu sonho:
Tem frio, ó Natureza - aquece-o no teu leito.
Os perfumes não mais lhe fremem as narinas,
Dorme ao sol, suas mãos a repousar suspiras
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.
Tradução de Ivo Barroso
Era um recanto onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.
Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.
Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono
De uma criança que risse, enferma, no seu sonho:
Tem frio, ó Natureza - aquece-o no teu leito.
Os perfumes não mais lhe fremem as narinas,
Dorme ao sol, suas mãos a repousar suspiras
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.
Tradução de Ivo Barroso
segunda-feira, 21 de julho de 2008
JACQUES PRÉVERT
Fonte: jiraudiverso.blogspot.com
Jacques Prévert
E DEUS EXPULSOU ADÃO…
E Deus expulsou Adão com golpes de cana-de-açúcar
E assim fabricou o primeiro rum na terra
E Adão e Eva cambalearam
pelos vinhedos do Senhor
a Santíssima Trindade os encurralava
mesmo assim continuaram cantando
com voz infantil de tabuada
Deus e Deus quatro
Deus e Deus quatro
E a Santíssima Trindade chorava…
Por cima do triângulo isóssal e sagrado
um biângulo isopimenta brilhava
e o eclipsava.
Tradução de Nicole
sábado, 19 de julho de 2008
AUGUSTO DOS ANJOS
Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms

Augusto dos Anjos
VOZES DA MORTE
Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!
Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!
Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,
Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!
OSCAR WILDE
Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms
Oscar Wilde
O DISCÍPULO
Quando Narciso morreu, a taça de água doce que era o lago dos seus prazeres converteu-se em taça de lágrimas amargas e as Oréadas vieram carpindo pelos bosques a fim de cantar para ele, consolando-o.
E, quando perceberam que o lago se transmudara de taça de água doce noutra de lágrimas amargas, desgrenharam as tranças verdes dos seus cabelos e disseram:
- Não nos admiramos de que pranteeis Narciso dessa maneira. Ele era tão belo!
- Narciso era belo? - indagou o lago.
- Quem sabe melhor do que vós? - responderam as Oréadas. Ao cortejar-vos, ele nos desprezava, debruçado às vossas margens mirando-vos, e, no espelho de vossas águas, contemplava a própria beleza.
E o lago retrucou:
- Eu amava Narciso porque, quando ele se debruçava sobre as minhas margens para contemplar-me, eu via sempre refletir-se no espelho dos seus olhos a minha própria beleza.
Tradução de Dilermando Duarte Cox
quinta-feira, 17 de julho de 2008
PAUL VALÉRY
Fonte: Wikisource - Licença Creative Commoms
Paul Valéry
O BOSQUE AMIGO
Nós pensávamos coisas bem puras
Lado a lado, em longas caminhadas;
Nossas mãos estavam entrelaçadas
Sem fala... entre flores obscuras.
Íamos sonhadores e ausentes
Sós, na noite verde das pradarias,
Partilhando o fruto das fantasias,
A lua companheira dos dementes.
E depois nós morremos sobre o relvado,
Longe, perdidos no bosque habitado
Por um murmúrio afável e brando
E no luzir do infinito ócio
Tornamos a nos encontrar chorando
Ó doce companheiro de silêncio.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves
quarta-feira, 16 de julho de 2008
WILLIAM BLAKE
A ROSA ENFERMA
Ó, rosa, como estás mal!
O verme invisível
Que voa na noite
No vendaval terrível
Encontrou teu leito
De rubro prazer
E seu amor negro, secreto,
Faz tua vida fenecer.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves
Ó, rosa, como estás mal!
O verme invisível
Que voa na noite
No vendaval terrível
Encontrou teu leito
De rubro prazer
E seu amor negro, secreto,
Faz tua vida fenecer.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves
terça-feira, 15 de julho de 2008
GUILLAUME APOLLINAIRE
Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms
Guillaume Apollinaire
EU NÃO SEI MAIS
Eu não sei mais se ainda lhe tenho amor
Nem se o inverno conhece o meu pecado
O céu é hoje um pesado cobertor
E meus amores por eu tê-los ocultado
Perecem dentro de mim mesmo de amor
Tradução de Paulo Azevedo Chaves
segunda-feira, 14 de julho de 2008
PAUL VERLAINE
Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms

Paul Verlaine
COLÓQUIO SENTIMENTAL
Num parque solitário e gelado
Um casal caminhava apressado.
O olhar era vazio, cada boca, uma cava,
E o que diziam bem mal se escutava.
Num parque solitário e gelado
Dois vultos relembravam o passado.
- Lembras-te do nosso amor, amigo?
- Tolice... algo já tão antigo.
Nada restou de tua paixão?
Nunca pensas em mim? – Não.
- O êxtase era indescritível
A cada beijo. – É possível.
- O céu era claro, parecia belo o futuro.
- O futuro envileceu, o céu ficou escuro.
Assim iam eles, pelas áleas, de olhar fito.
E só a noite escutou o que foi dito.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves
Num parque solitário e gelado
Um casal caminhava apressado.
O olhar era vazio, cada boca, uma cava,
E o que diziam bem mal se escutava.
Num parque solitário e gelado
Dois vultos relembravam o passado.
- Lembras-te do nosso amor, amigo?
- Tolice... algo já tão antigo.
Nada restou de tua paixão?
Nunca pensas em mim? – Não.
- O êxtase era indescritível
A cada beijo. – É possível.
- O céu era claro, parecia belo o futuro.
- O futuro envileceu, o céu ficou escuro.
Assim iam eles, pelas áleas, de olhar fito.
E só a noite escutou o que foi dito.
Tradução de Paulo Azevedo Chaves
domingo, 13 de julho de 2008
EMILY DICKINSON
Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms

Emily Dickinson
Meu rio corre até ti:
Mar azul, aceitas-me?
Meu rio espera resposta.
Ó mar, vê se me gostas.
Eu te trarei regatos
De escondidos regaços –
Dize, mar, vais-me levar?
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes
Mar azul, aceitas-me?
Meu rio espera resposta.
Ó mar, vê se me gostas.
Eu te trarei regatos
De escondidos regaços –
Dize, mar, vais-me levar?
Tradução de Aíla de Oliveira Gomes
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Andrômeda, Gustavo Dore