Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

sábado, 12 de julho de 2008

KONSTANTINOS KAVÁFIS


Fonte: Wikipedia - Licença Creative Commoms

Konstantinos Kaváfis

DESEJOS

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas –
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.


Tradução de José Paulo Paes.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

CHARLES BAUDELAIRE


Foto: Félix Nadar. Fonte: Wikipedia. Licença Creative Commoms.

Charles Baudelaire


O Albatroz

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatoz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
A asa de gigante impedem-no de andar.


Tradução de Guilherme de Almeida

STÉPHANE MALLARMÉ

Foto: Félix Nadar. Fonte: Wikipedia. Licença Creative Commoms

Stéphane Mallarmé
BRINDE

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.


Tradução de Augusto de Campos

ALBERTO DA CUNHA MELO

Fonte: Poetas del Mundo

Alberto da Cunha Melo



CANTO DOS EMIGRANTES

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

GILKA MACHADO


Gilka Machado



Particularidades 2

Tudo quanto é macio os meus ímpetos doma,
e flexuosa me torna e me torna felina.
Amo do pessegueiro a pubescente poma,
porque afagos de velo oferece e propina.

O intrínseco sabor lhe ignoro, se ela assoma,
no rubor da sazão, sonho-a doce, divina!
gozo-a pela maciez cariciante, de coma,
e o meu senso em mantê-la incólume se obstina...

Toco-a, palpo-a, acarinho o seu carnal contorno,
saboreio-a num beijo, evitando um ressábio,
como num lento olhar te osculo o lábio morno.

E que prazer o meu! que prazer insensato!
– pela vista comer-te o pêssego do lábio,
e o pêssego comer apenas pelo tato.

MÁRIO DE ANDRADE

Foto: autor desconhecido. Fonte: luishipolito.blogspot.comMário de Andrade


Aceitarás o amor como eu o encaro?

...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

terça-feira, 8 de julho de 2008

CELINA DE HOLANDA


Fonte: Interpoética

Celina de Holanda



RÉPTIL E PÁSSARO

Um espelho e seus dois lados,
réptil e pássaro,
o que somos.

Mas eu sei do lagar
do seu labor de vinho
e de raio.
Ó, esse raio, espada
que vem e vai.
Para onde essas rotas de vôo
se abrem e se apagam?

Que serventia de luz
tem esse horror a nosso lado?

segunda-feira, 7 de julho de 2008

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Foto: autor desconhecido. Fonte: Wikimedia Commoms

Mário de Sá-Carneiro

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que,desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

PEDRO MILITÃO KILKERRY


É o silêncio
...


É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa…
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas… Comovido

Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,

Asa que o ouvido anima…
E a câmara muda. E a sala muda, muda…
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda

Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima…

E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas… O dia
Tarde florescerá pela montanha.
E ó minha amada, o sentimento é cego…
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

sábado, 5 de julho de 2008

WILLIAM BLAKE

Fonte: Wikipedia licensed under a Creative Commons

Retrato de William Blake, por Thomas Phillips

O TYGRE


Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? Que martelo?
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

Tradução: José Paulo Paes

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Apolo e as Musas

Apolo e as Musas no monte Hélicon
Claude Gellée, Le Lorain - c. 1628
© 2000 Museum of Fine Arts, Boston

Bashô - 4 haikais

Fonte: Wikipedia licensed under a Creative CommonsMatsuo Bashô (1644-1694)
Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho


A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra


Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago


Oh anda ver
uma bola de neve
a arder
Tradução: Jorge de Sousa Braga

JORGE DE LIMA

Jorge de Lima
ANJO DALTÔNICO
Tempo da infância, cinza de borralho,
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho,
cobre isso tudo em que me denuncio.

Há também essa face que sumiu
e o espelho triste e o rei desse baralho.
Ponho as cartas na mesa. Jogo frio.
Veste esse rei um manto de espantalho.

Era daltônico o anjo que o coseu,
e se era anjo, senhores, não se sabe,
que muita coisa a um anjo se assemelha.

Esses trapos azuis, olhai, sou eu.
Se vós não os vedes, culpa não me cabe
de andar vestido em túnica vermelha.

CARLOS PENA FILHO

Carlos Pena Filho

SONETO DAS DEFINIÇÕES

Não falarei das coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.

Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Apolo e Jacinto

fonte: Wikipedia A Morte de Jacinto, 1801
Jean Broc (1771-1850)

ARTHUR RIMBAUD

Foto: Étienne Carjat - domínio públicoArthur Rimbaud

Longe de pássaros, de rebanhos e aldeãs,
Numa clareira, o que estaria eu a beber de
Joelhos, tendo em volta uns bosques de avelãs,
Na cerração de um meio-dia úmido e verde?

O que haveria eu de beber nesse Oise infante,
- Olmos sem voz, relva sem flores, céu sem mira! –
Beber em cuias amarelas, bem distante
Da tenda? Algum licor dourado que transpira.

A torpe insígnia de um albergue eu parecia.
- Um temporal varreu o céu. No anoitecer
Na areia branca a água dos bosques se perdia,
No charco o vento de Deus flocos fez descer;

Chorando, eu via o ouro – e sem poder beber.


Tradução: Ivo Barroso in RIMBAUD, Arthur.
Uma estadia no inferno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.