Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

sábado, 10 de outubro de 2009

PSIQUÊ



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A galeria de Psiquê, de Raphael


SAFO


wikipedia
Safo (representada em mosaico)


TRÊS FRAGMENTOS DE SAFO


vem, lira divina, e me responde;
encontra, tu mesma, tua própria voz.

Tradução de Joaquim Brasil Fontes


como a maçã mais doce enrubescendo-se
no alto do mais alto ramo, a sós,
que os colhedores esqueceram lá –
não, esqueceram não: nenhum pôde alcançar.

Tradução de Álvaro A. Antunes


é Eros outra vez
que, fera má, me acossa:
de-fel-de-mel serpente impiedosa
envenenando de tremor as minhas coxas.

Tradução de Álvaro A. Antunes

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

TERRA E ÁGUA

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A união da Terra e da Água, de Peter Paul Rubens

CELINA DE HOLANDA


OS AMIGOS

Os amigos chegam, ponho a mesa.
Branca, estendida a esperança.
Às sombras
rogo o ensejo do contraste
equilíbrio de opostos
necessário
ao claro, para a imagem.
Ó, a tristeza
de sermos o que somos e não
como queriam que fôssemos os que
amamos.

Os amigos chegam,
venham de onde vierem, ponho a mesa.

sábado, 26 de setembro de 2009

CUPIDO


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A punição de Cupido, de Sebastiano Ricci

CECÍLIA MEIRELES


MADRUGADA NO CAMPO

Com que doçura esta brisa penteia
a verde seda fina do arrozal -
Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida
lua, nem o suspiro do cristal.

Com que doçura a transparente aurora
tece na fina seda do arrozal
aéreos desenhos de orvalho! Nem lágrima,
nem pérola, nem íris de cristal...

Com que doçura as borboletas brancas
prendem os fios verdes do arrozal
com seus leves laços! Nem dedos, nem pétalas,
nem frio aroma de anis em cristal

Com que doçura o pássaro imprevisto
de longe tomba no verde arrozal!
- Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal.

domingo, 20 de setembro de 2009

ARIADNE


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Ariadne, de John William Waterhouse

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

PSICANÁLISE DO AÇÚCAR

O açúcar cristal, ou açúcar de usina,
mostra a mais instável das brancuras:
quem do Recife sabe direito o quanto,
e o pouco desse quanto, que ela dura.
Sabe o mínimo do pouco que o cristal
se estabiliza cristal sobre o açúcar,
por cima do fundo antigo, de mascavo,
do mascavo barrento que se incuba;
e sabe que tudo pode romper o mínimo
em que o cristal é capaz de censura:
pois o tal fundo mascavo logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.

*

Só os bangüês que ainda purgam ainda
o açúcar bruto com barro, de mistura;
a usina já não o purga: da infância,
não de depois de adulto, ela o educa;
em enfermarias, com vácuos e turbinas,
em mãos de metal de gente indústria,
a usina o leva a sublimar em cristal
o pardo do xarope: não o purga, cura.
Mas como a cana se cria ainda hoje,
em mãos de barro de gente agricultura,
o barrento da pré-infância logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.

domingo, 13 de setembro de 2009

ANTÍGONA


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Antígona, de Lord Frederick Leighton

ISIDORE DUCASSE


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Isidore Ducasse

CANTOS DE MALDOROR (fragmento)

Ó polvo do olhar de seda: tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos habitantes do globo terrestre e que comandas um serralho de quatrocentas ventosas; tu, em quem residem nobremente, como em sua habitação natural, por comum acordo de indestrutível laço, a doce virtude comunicativa e as graças divinas – porque não estás tu comigo, com o teu ventre de mercúrio encostado ao meu peito de alumínio, sentados os dois nalgum rochedo da costa, para contemplarmos este espetáculo que eu adoro!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

BACANTE

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Bacante, de Lord Frederick Leighton

ANAÏS NIN


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Anaïs Nin


A CASA DO INCESTO (excerto)

Nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ANDRÔMACA

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Andrômaca no cativeiro, de Lord Frederick Leighton

GREGORY CORSO

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Gregory Corso

POETAS PEDINDO CARONA À BEIRA DA ESTRADA

Claro que eu tentei lhe dizer
mas ele virou a cara
sem sequer desculpar-se
Eu lhe disse que o céu persegue
o sol
E ele sorriu e disse:
"Sim e daí?" Eu me sentia como um demônio
outra vez
Por isso disse: "Mas o oceano persegue
os peixes."
Desta vez ele riu
e disse: "Suponho que
os morangos foram empurrados para uma montanha."
Depois disso vi que a
guerra estava declarada...
Então lutamos:
Ele disse: "A carroça das maçãs como um
anjo numa vassoura
racha & lasca
velhos tamancos holandeses."
Eu disse: "O relâmpago vai cair no velho carvalho
e libertar a fumaça!"
Ele disse: "Rua louca sem nome."
Eu disse: "Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca."
Ele disse, perdendo a cabeça de uma vez por todas,
"Fogões! Gasolina! Divã"
Eu, sorrindo, disse apenas:
"Sei que Deus voltaria sua cabeça
caso eu me sentasse calado e pensasse."
Acabamos evaporando
com ódio do ar!

Tradução de Eduardo Bueno

sábado, 8 de agosto de 2009

ACTEA

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Actea, a ninfa da praia, de Lord Frederick Leighton

MYRIAM COELI


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Myriam Coeli


MEDIDA

Para João Lins Caldas

Na geometria de um caixão
não cabe espanto ou alarido
nem o tempo com seus vestidos,
vazio, fábula, condição.
Tolhida é a fala e a permanência.
Vida, hieróglifo decifrado.
Peito enredado em tédio ou em grito
não cabe em barco de um caixão.

Não cabe sede, fonte e fome
concretas arestas de espadas
lacerando da vida o signo
em verdades acrescentadas.
Garras da fúria de um minuto
não cravam rictus nem desgosto
nem dialogam faces prismáticas
com configurações propostas.
Só cabe em crepes de um caixão
Pontas de adjetivas sombras.

Não há ginetes cavalgando
no avesso das pupilas. E aves
súbitas em cantos no abismo
de sonhos. Ou olhos vigilantes.
Não há mãos, gestos delirantes,
coração tirso ou pés em préstito,
nem periscópio ou concisão,
cilício e muros submersos.
Prata, ouro, coisas corrosivas
tempo artesão e alma em volutas
sobram em móvel de um caixão.

Não há sega de sangue ou cuspe,
não há canto, mapa ou disfarce.
Dados e dardos não se arriscam,
nem se acendem em febres, brasas,
os desejos desconformados.
Nem pelo medo é devorado
que se tem em limite exato
nas alegorias do tato.
Não há labirintos seguros
onde a angústia é subterrânea
hiena que as vísceras come.
(Já nos suportes do caixão
começam clarins de silêncio).

Em horizontes de um caixão
linha exata repousa a treva
e o corpo – desusada pedra
de antracite, de pó e nada
levitando em logro. Insuflada
Caixão entre círios e réquiens,
de grifos negros, feras mortas
e em tralhas de rendas tortas
velado em catafalco amém.

Mundo que se desmistifica
no surdo baque de um caixão.