Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

domingo, 12 de julho de 2009

ASCLÉPIO


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Asclépio

CECÍLIA MEIRELES


ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

sábado, 4 de julho de 2009

NAUSÍCAA

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Nausícaa, de Lord Frederick Leighton

ROBERT FROST


FOGO E GELO

Alguns dizem que o mundo terminará com fogo.
Outros, que será com gelo.
Pelo que eu conheço do desejo,
Acredito que será com fogo.
Mas se duas vezes tivesse que ser morto,
Conheço o ódio o bastante
Para dizer que na destruição o gelo
É possante
E seria perfeito.

Tradução de Paulo Azevedo Chaves

segunda-feira, 29 de junho de 2009

HÉRCULES, MORTE E ALCESTE

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Hércules lutando com a Morte pelo corpo de Alceste, de Lord Frederick Leighton

MARCELINE DESBORDES-VALMORE


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Marceline Desbordes-Valmore


AS ROSAS DE SAADI

Esta manhã eu quis levar-te rosas,
Mas tantas eu tinha na cintura presas
Que os nós cerrados não as puderam conter.

Os nós rebentaram. E elas levadas
Pelo vento no mar foram tragadas.
As rosas perdidas eu não consegui rever;

As águas ficaram vermelhas, como inflamadas.
Esta noite minhas vestes ainda estão perfumadas.
Aspira em mim a lembrança de as trazer.

Tradução de Paulo Azevedo Chaves

terça-feira, 23 de junho de 2009

JUNO



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Juno Ardente, de Lord Frederick Leighton


MANUEL BANDEIRA


PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci.

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

PSIQUÊ


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Psiquê entrando no jardim de Cupido, de John William Waterhouse

CARL SANDBURG

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Carl Sandburg
CAPIM

Empinhai bem alto os cadáveres em Austerlitz e Waterloo,
Enterrai-os bem fundo e deixai-me trabalhar -
Eu sou o capim; a tudo eu encubro.
E empilha-os bem alto em Gettysburg
E empilha-os bem alto em Ypres e Verdun.
Enterrai-os bem fundo e deixai-me trabalhar.
Dois, dez anos e os passageiros perguntam ao motorista:
Onde nos encontramos agora?
Como se chama este lugar?
Eu sou o capim,
Deixai-me trabalhar.

Tradução de Paulo Azevedo Chaves

terça-feira, 9 de junho de 2009

NINFA

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Ninfa, de Jules Joseph Lefebvre

FAGUNDES VARELA


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Fagundes Varela



NÉVOAS

Nas horas tardias que a noite desmaia
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu pranto de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas,
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada — sereno, dormindo,
Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve — puríssima e nua —
Um raio da lua de manso batia,
E assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E queda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes
— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?
E as asas, de prata do gênio das noites
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!...
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam — e as névoas tremiam
— E os gênios corriam — no espaço a cantar,
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolto em vapores — mais fria que a morte!

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias
– Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas da aurora ligeiras corriam.
No leito batiam da fada divina...
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em — neblina!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

DIANA

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Diana e suas companheiras, de Jan Vermeer Van Delft

GEORG TRAKL


DE PROFUNDIS

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom, ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terna órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.

Tradução de Claudia Cavalcanti

domingo, 7 de junho de 2009

CLOÉ

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Cloé, de Jules Joseph Lefebvre

JUNQUEIRA FREIRE


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Junqueira Freire


LOUCO

(HORA DE DELÍRIO)

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre,
Aproxima-se mais à essência etérea.

Achou pequeno o cérebro que o tinha:
Suas idéias não cabiam nele;
Seu corpo é que lutou contra sua alma,
E nessa luta foi vencido aquele,

Foi uma repulsão de dois contrários:
Foi um duelo, na verdade, insano:
Foi um choque de agentes poderosos:
Foi o divino a combater com o humano.

Agora está mais livre. Algum atilho
Soltou-se-lhe o nó da inteligência;
Quebrou-se o anel dessa prisão de carne,
Entrou agora em sua própria essência.

Agora é mais espírito que corpo:
Agora é mais um ente lá de cima;
É mais, é mais que um homem vão de barro:
É um anjo de Deus, que Deus anima.

Agora, sim — o espírito mais livre
Pode subir às regiões supernas:
Pode, ao descer, anunciar aos homens
As palavras de Deus, também eternas.

E vós, almas terrenas, que a matéria
Os sufocou ou reduziu a pouco,
Não lhe entendeis, por isso, as frases santas.
E zombando o chamais, portanto: - um louco!

Não, não é louco. O espírito somente
É que quebrou-lhe um elo da matéria.
Pensa melhor que vós, pensa mais livre.
Aproxima-se mais à essência etérea.