Um caderno de leituras

"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"

Safo

sábado, 13 de setembro de 2008

EZRA POUND

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Ezra Pound

ENVOI

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Tradução de Augusto de Campos

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

TRISTAN TZARA


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Tristan Tzara


PRELIMINAR

cabelos desfeitos sentem a nuvem de sangue
do teu sangue frágil
lenta ao presságio do amor
lenta
pelas veias rumo à vibração hospitaleira
do teu sangue
lenta
febre frágil hipótese sem amor
dorme sem pálpebras os pés de lado
sobre a escala das costelas a tosse
balbucia sua pequena repetição aritmética

Tradução de Virna Teixeira

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

NINFAS


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Ninfas e Sátiro (1873), de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

WILLIAM SHAKESPEARE

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William Shakespeare
O Retrato de Chandos. Pintura atribuída a John Taylor
National Portrait Gallery, Londres

Soneto LXV

Se ao bronze, à pedra, ao solo, ao mar ingente,
Lhes vem a Morte o seu poder impor,
Como a beleza lhe faria frente
Se não possui mais forças que uma flor?
Com um hálito de mel pode o verão
Vencer o assédio pertinaz dos dias,
Quando infensas ao Tempo nem serão
As portas de aço e as ínvias penedias?
Atroz meditação! como esconder
Da arca do Tempo a jóia preferida?
Que mão lhe pode os ágeis pés deter?
Quem não lhe sofre o espólio nesta vida?
Nada! a não ser que a graça se consinta
De que viva este amor na negra tinta.

Tradução de Ivo Barroso

terça-feira, 9 de setembro de 2008

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

LUÍS DE CAMÕES

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Luís de Camões

TRANSFORMA-SE O AMADOR NA COUSA AMADA

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

domingo, 7 de setembro de 2008

PSIQUÊ


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Psiquê parasita de amor (1873), de Sava Henţia (1848 - 1904)
Sebesel, Alba, România

sábado, 6 de setembro de 2008

CÉSAR VALLEJO

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César Vallejo

OS ANÉIS FATIGADOS

Há ânsias de voltar, de amar, de não ausentar-se,
e há ânsias de morrer, combatido por duas
águas unidas que jamais hão-de istmar-se.

Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida,
que acaba na áfrica de uma agonia ardente,
suicida!

Há ânsias de... não ter ânsias, Senhor,
a ti aponto-te com o dedo deicida:
há ânsias de não ter tido coração.

A primavera volta, volta e partirá. E Deus,
curvado em tempo, repete-se, e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo.

Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor,
quando me dói o sonho gravado num punhal,
há ânsias de ficar plantado neste verso!

Tradução de José Bento

ADÔNIS


fonte: danielmoreira08.blogspot.com

Adonis, de James Northcote

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

DYLAN THOMAS

divulgação
Dylan Thomas

MORTES E ENTRADAS

Quase às vésperas incendiárias
De várias mortes próximas,
Quando alguém ante os despojos de quem mais amaste,
E desde sempre conhecido, tenha de abandonar
Os leões e as flamas de sua volátil respiração,
Quem dentre os teus amigos imortais
Elevaria o som dos órgãos do pó inventariado
Para lançar e cantar os teus louvores,
O que mais fundo os invocasse conquistaria a sua paz
Que não pode se afogar ou se esvair
Sem fim junto à sua chaga
Nas muitas e alienantes dores
conjugais de Londres.

Quase às vésperas incendiárias
Quando diante de teus lábios e chaves,
Fechando, abrindo, se entrelacem os estranhos assassinados,
Aquele que é o mais desconhecido,
Teu vizinho, a estrela polar, sol de uma outra rua,
Mergulhará em tuas lágrimas.
Ele há de banhar teu sangue chuvoso no másculo oceano
Que percorrerá teu próprio morto
E fará girar sua esfera fora de teu fio de água
E entupirá as gargantas das conchas
Com todos os gritos desde que a luz
Começou a jorrar através de seus olhos tonitruantes.

Quase às vésperas incendiárias
De mortes e entradas,
Quando próximo e estranho, ferido nas ondas de Londres,
Hajas procurado a tua tumba solitária,
Um inimigo entre muitos, que bem sabe
Como cintila o teu coração
Nas trevas vigiadas, pulsando entre furnas e ferrolhos,
Arrancará os raios
Para tapar o sol, mergulhará, galgará tuas teclas sombrias
E fará definhar os ginetes para que recuem,
Até que aquele despojo adorado
Avulte como o último Sansão de teu zodíaco.

Tradução de Ivan Junqueira

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

terça-feira, 2 de setembro de 2008

AUDÁLIO ALVES


interpoética

Audálio Alves


INICIAÇÃO À ETERNIDADE

Entre o Sol e a Lua
e, mais,
entre o chão que me segura
e o espaço que me veste,
aqui inicio
esta aula celeste:
- Olhem-me nos olhos:
conservem a inteireza do silêncio.
Lembrem-se de Deus
e sigam-me
em direção ao infinito.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

CONDESSA DE NOAILLES


Condessa de Noailles, em pintura de Ignacio Zuloaga



IMAGEM

Meu pobre fauno moribundo
Reflete-me no teu olhar,
E entre as sombras do outro mundo
Minha memória faz dançar.

Vai, e dize aos mortos celestes,
A quem, decerto, eu agradara,
Que os lembrarei sob os ciprestes,
Por onde vou, franzina e clara.

Hás-de contar-lhes esta fronte,
Com seus bandeletes de lã,
A boca estreita e os dedos, onde
Há cheiro a feno e a hortelã.

Fala em meus gestos singulares
Deslizando tal qual a sombra
Que balanceiam nos pomares
As folhas vivas e sem conta.

Dirás aquilo que em mim arde,
Nas minhas pálpebras pesando,
E que ao dançar, a brisa, à tarde
Vai-me o vestido desmanchando.

Dirás que assim em me reclino
Sobre os braços nus e que, cheias,
Na minha carne de oiro fino,
Cor de violeta são as veias.

Dize-lhes que são meus cabelos
Dum azul de fruto a amadurar;
Alvos, meus pés são dois espelhos
E tenho os olhos cor de luar.

E diz que em noites de langor,
Deitada à beira das nascentes,
Eu abracei, de puro amor,
Suas sombras inconsistentes.

Tradução de A. Herculano de Carvalho

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

wikimedia commons
William Butler Yeats



VERSOS ESCRITOS EM DESALENTO

Quando é que eu vi pela última vez
Os olhos verdes redondos e os corpos longos vacilantes
Dos leopardos escuros da lua?
Todas as bruxas selvagens, aquelas senhoras muito nobres,
Por todas as suas vassouras e as suas lágrimas,
Suas lágrimas de raiva, fugiram.
Os santos centauros das colinas desapareceram;
Não tenho nada para além do amargado sol;
Banida mãe lua heróica e desaparecida,
E agora que cheguei aos cinqüenta anos
Tenho que agüentar o tímido sol.

Tradução de Antonio de Campos

terça-feira, 26 de agosto de 2008

APOLO E AS MUSAS

reprodução

Apolo e as Musas (1934), de Abel Manta.
Escola Superior de Belas Artes de Lisboa