"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"
Safo
sábado, 26 de setembro de 2009
CECÍLIA MEIRELES
MADRUGADA NO CAMPO
Com que doçura esta brisa penteia
a verde seda fina do arrozal -
Nem cílios, nem pluma, nem lume de lânguida
lua, nem o suspiro do cristal.
Com que doçura a transparente aurora
tece na fina seda do arrozal
aéreos desenhos de orvalho! Nem lágrima,
nem pérola, nem íris de cristal...
Com que doçura as borboletas brancas
prendem os fios verdes do arrozal
com seus leves laços! Nem dedos, nem pétalas,
nem frio aroma de anis em cristal
Com que doçura o pássaro imprevisto
de longe tomba no verde arrozal!
- Caído céu, flor azul, estrela última:
súbito sussurro e eco de cristal.
domingo, 20 de setembro de 2009
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
O açúcar cristal, ou açúcar de usina,
mostra a mais instável das brancuras:
quem do Recife sabe direito o quanto,
e o pouco desse quanto, que ela dura.
Sabe o mínimo do pouco que o cristal
se estabiliza cristal sobre o açúcar,
por cima do fundo antigo, de mascavo,
do mascavo barrento que se incuba;
e sabe que tudo pode romper o mínimo
em que o cristal é capaz de censura:
pois o tal fundo mascavo logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.
*
Só os bangüês que ainda purgam ainda
o açúcar bruto com barro, de mistura;
a usina já não o purga: da infância,
não de depois de adulto, ela o educa;
em enfermarias, com vácuos e turbinas,
em mãos de metal de gente indústria,
a usina o leva a sublimar em cristal
o pardo do xarope: não o purga, cura.
Mas como a cana se cria ainda hoje,
em mãos de barro de gente agricultura,
o barrento da pré-infância logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.
domingo, 13 de setembro de 2009
ISIDORE DUCASSE
reprodução
CANTOS DE MALDOROR (fragmento)
Ó polvo do olhar de seda: tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos habitantes do globo terrestre e que comandas um serralho de quatrocentas ventosas; tu, em quem residem nobremente, como em sua habitação natural, por comum acordo de indestrutível laço, a doce virtude comunicativa e as graças divinas – porque não estás tu comigo, com o teu ventre de mercúrio encostado ao meu peito de alumínio, sentados os dois nalgum rochedo da costa, para contemplarmos este espetáculo que eu adoro!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
ANAÏS NIN
Anaïs Nin
A CASA DO INCESTO (excerto)
Nasci sem pele. Um dia sonhei que estava nu num jardim e que cuidadosa e completamente me tiravam a pele como a um fruto. Não ficou nem um resto de pele no meu corpo. Foi toda mas toda retirada com cuidado e só depois me disseram para andar, viver e correr. A princípio movimentei-me devagar, o jardim era tremendamente macio e eu sentia de uma precisa o jardim-doçura, não na superfície do corpo, mas atravessando-me o ar doce e os perfumes, como agulhas penetrando todos os meus poros em sangue. Todos os poros estavam abertos e respiravam calor, doçura e cheiros. O corpo totalmente invadido, penetrado, reagindo, a mais pequena célula e poros vivos respirando e tremendo com prazer. Gritei de dor. Corri. E ao correr o vento chicoteava-me e as vozes das pessoas eram chicotes dirigidos a mim. Ser tocado! Acaso sabem vocês o que é ser tocado por um ser humano?
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
GREGORY CORSO
POETAS PEDINDO CARONA À BEIRA DA ESTRADA
Claro que eu tentei lhe dizer
mas ele virou a cara
sem sequer desculpar-se
Eu lhe disse que o céu persegue
o sol
E ele sorriu e disse:
"Sim e daí?" Eu me sentia como um demônio
outra vez
Por isso disse: "Mas o oceano persegue
os peixes."
Desta vez ele riu
e disse: "Suponho que
os morangos foram empurrados para uma montanha."
Depois disso vi que a
guerra estava declarada...
Então lutamos:
Ele disse: "A carroça das maçãs como um
anjo numa vassoura
racha & lasca
velhos tamancos holandeses."
Eu disse: "O relâmpago vai cair no velho carvalho
e libertar a fumaça!"
Ele disse: "Rua louca sem nome."
Eu disse: "Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca."
Ele disse, perdendo a cabeça de uma vez por todas,
"Fogões! Gasolina! Divã"
Eu, sorrindo, disse apenas:
"Sei que Deus voltaria sua cabeça
caso eu me sentasse calado e pensasse."
Acabamos evaporando
com ódio do ar!
Tradução de Eduardo Bueno
sábado, 8 de agosto de 2009
MYRIAM COELI
Myriam Coeli
MEDIDA
Para João Lins Caldas
Na geometria de um caixão
não cabe espanto ou alarido
nem o tempo com seus vestidos,
vazio, fábula, condição.
Tolhida é a fala e a permanência.
Vida, hieróglifo decifrado.
Peito enredado em tédio ou em grito
não cabe em barco de um caixão.
Não cabe sede, fonte e fome
concretas arestas de espadas
lacerando da vida o signo
em verdades acrescentadas.
Garras da fúria de um minuto
não cravam rictus nem desgosto
nem dialogam faces prismáticas
com configurações propostas.
Só cabe em crepes de um caixão
Pontas de adjetivas sombras.
Não há ginetes cavalgando
no avesso das pupilas. E aves
súbitas em cantos no abismo
de sonhos. Ou olhos vigilantes.
Não há mãos, gestos delirantes,
coração tirso ou pés em préstito,
nem periscópio ou concisão,
cilício e muros submersos.
Prata, ouro, coisas corrosivas
tempo artesão e alma em volutas
sobram em móvel de um caixão.
Não há sega de sangue ou cuspe,
não há canto, mapa ou disfarce.
Dados e dardos não se arriscam,
nem se acendem em febres, brasas,
os desejos desconformados.
Nem pelo medo é devorado
que se tem em limite exato
nas alegorias do tato.
Não há labirintos seguros
onde a angústia é subterrânea
hiena que as vísceras come.
(Já nos suportes do caixão
começam clarins de silêncio).
Em horizontes de um caixão
linha exata repousa a treva
e o corpo – desusada pedra
de antracite, de pó e nada
levitando em logro. Insuflada
Caixão entre círios e réquiens,
de grifos negros, feras mortas
e em tralhas de rendas tortas
velado em catafalco amém.
Mundo que se desmistifica
no surdo baque de um caixão.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
ALEXANDRE HERCULANO
Alexandre Herculano
A VITÓRIA E A PIEDADE
I
Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos paços dos senhores!
Eu jamais consagrei hino mentido
Da terra dos opressores.
Mal haja o trovador que vai sentar-se
À porta do abastado,
O qual com ouro paga a própria infâmia,
Louvor que foi comprado.
Desonra àquele, que ao poder e ao ouro
Prostitui o alaúde!
Deus à poesia deu por alvo a pátria,
Deu a glória e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hino isento a inspiração transforme
Que na sua alma adeja.
domingo, 26 de julho de 2009
JULES LAFORGUE
Jules Laforgue
LITANIAS DOS QUARTOS
CRESCENTES DA LUA
Lua sublime,
Nos ilumine!
É o medalhão
De Endimião,
Astro de argila
Que tudo exila,
Caixão milenar
De Salambô lunar,
Cais etéreo
Do alto mistério,
Madona e miss,
Diana-Artemis,
Santa vigia
De nossa orgia,
Jetaturá
Do bacará,
Dama tão pálida
Em nossa praça,
Vago perfume
De vaga-lume,
Rosácea calma
Do último salmo,
Olho-de-gata
Que nos resgata,
Seja o auxílio
A nosso delírio!
Seja o edredão
Do Grande Perdão!
Tradução de Cláudio Daniel
