
Um caderno de leituras
"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"
Safo
"esguias Graças, Musas de mais magas tranças,
vinde, vinde agora"
Safo
domingo, 8 de agosto de 2010
SEBASTIÃO UCHOA LEITE
reprodução
Sebastião Uchoa Leite
ENIGMÓIDES
Espelho ao avesso
Sobre o abismo
Já sou mais isso
Do que eu mesmo
Reflexo antevisto
Do caos amórfico
Informe e vasto
Sonho malérico
WISLAWA SZYMBORSKA
MUSEU
Há pratos, mas falta apetite
Há alianças, mas falta reciprocidade
pelo menos desde há 300 anos.
Há o leque - onde os rubores?
Há espadas - onde há ira?
E o alaúde nem tange à hora gris.
Por falta de eternidade juntaram
Dez mil coisas velhas.
Um guarda musgoso cochila docemente,
com os bigodes caindo sobre a vitrine.
Metais, barro, plumas de ave
Triunfam silenciosamente no tempo.
Apenas um alfinete da galhofeira do Egito ri zombeteiro.
A coroa deixou passar a cabeça.
A mão perdeu a luva.
A bota direita prevaleceu sobre a perna.
Quanto a mim, vivo, acreditem por favor.
Minha corrida com o vestido continua
E que resistência tem ele!
E como ele gostaria de sobreviver!
Tradução de Henrik Siewierski e José Santiago
terça-feira, 25 de maio de 2010
ALBERTO DA CUNHA MELO
QUESTIONÁRIO
Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la?
Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la?
domingo, 25 de abril de 2010
RAINER MARIA RILKE
O SOLITÁRIO
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.
Tradução de Augusto de Campos
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,
ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.
Tradução de Augusto de Campos
segunda-feira, 19 de abril de 2010
JORGE MEDAUAR
reprodução
Jorge Medauar
ESPERANÇA
Eu faço versos como que luta
De armas em punho... de armas nas mãos...
Forma ao meu lado, pois na labuta
Os companheiros são como irmãos.
Meu verso é aço. Fornalha ardente...
Peito ou bigorna... Braço ou trator...
Corre entre o povo. Salgado e quente,
Cai gota a gota, por que é suor.
E nestes versos de luta ousada
Deixo a esperança que sempre tive
Nas tintas rubras da madrugada.
- Eu faço versos como quem vive.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
MAURO MOTA
PASTORAL
Não disse de onde veio. Apenas veio
quase flutuante pela madrugada.
A flauta e um zelo musical em cada
ovelha e em todas do seu pastoreio.
Toca. (Para o rebanho?) A sua toada
interrompe-se às vezes pelo meio.
Dela não quer somente o vale cheio:
quer levá-la mais longe. Quando nada
houver mais dos cordeiros e dos pastos,
do viço matinal, dos brancos rastos
de lã, dos guizos de uma ovelha incauta,
fique a lembrança do pastor fugace,
que foi pastor só para que ficasse
nas colinas a música da flauta.
Não disse de onde veio. Apenas veio
quase flutuante pela madrugada.
A flauta e um zelo musical em cada
ovelha e em todas do seu pastoreio.
Toca. (Para o rebanho?) A sua toada
interrompe-se às vezes pelo meio.
Dela não quer somente o vale cheio:
quer levá-la mais longe. Quando nada
houver mais dos cordeiros e dos pastos,
do viço matinal, dos brancos rastos
de lã, dos guizos de uma ovelha incauta,
fique a lembrança do pastor fugace,
que foi pastor só para que ficasse
nas colinas a música da flauta.
sexta-feira, 12 de março de 2010
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
ÁPORO
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
AUGUSTO DOS ANJOS
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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Danaide, de Auguste Rodin